Do jeito que eu falo (poema)

Do jeito que eu falo (poema) 

Do jeito que eu falo 

Eu vou escrevê, 

Ninguém me corrija, 

Me deixe dizê. 

 

Eu quero dançá, 

Eu quero sorri,  

Eu quero chegá, 

Eu quero parti. 

 

Eu falo assim, 

Você fala assado,

Ninguém está certo, 

Ninguém tá errado. 

 

De onde eu venho, 

Se escreve igual fala, 

A voz no papel 

Correndo se embala. 

 

Mamãe me falô: 

Vem logo almoçá!
Eu disse: – Já vô, 

Eu quero brincá!

 

Assim levo a vida, 

Falando, escrevendo, 

Do jeito que eu falo, 

Está me entendendo?

Autor: César Obeid. Proibida a reprodução, em por qualquer meio ou forma sem a expressa autorização do autor.

Conto “O barulho misterioso”

O barulho misterioso 

Texto de César Obeid
Proibida a reprodução, em qualquer meio, sem a devida autorização do autor

 

Lembro bem quando neguei dormir na casa da minha avó. Aquela cama que, há poucos anos, tinha o melhor cheiro do mundo, de uma hora para outra começou a criar espinhos na lembrança.

Aos sábados, sempre aos sábados. Aquele barulho misterioso nunca mais foi embora. Sempre às 04h da manhã.

De sexta para sábado, ouvia apenas sons de sapos, grilos e jacus que passeiam pelo telhado. Sem medo. 

Na primeira vez em que ouvi o barulho misterioso, quase caí ao pular da cama. Olhei para a janela e só encontrei a escuridão do quintal, que pulsava alegria de dia. Liguei a lanterna do meu celular e nada consegui ver, apenas galhos que faziam a dança do vento. Não dormi mais. O barulho apareceu de novo, meu coração saltou à boca, e corri para o quarto da minha avó.

— Vó, que barulho é esse?
— Não sei, minha filha, eu não escuto nada.
— Mas é alto, vó! Parece um bicho batendo em algo. É estranho! Tenho medo, vó.
— Não ouço nada, filha. Vamos tomar café?
— Já?
— São quase 5 horas da manhã. Aqui, no sítio, já é hora de levantar. Vamos, minha filha, que o dia será longo.

E o barulho se repetiu por meses. Eu acordava com os olhos arregalados, não tinha coragem de sair para o quintal e corria para a cama da minha avó, que não sabia de nada sobre o misterioso ruído.

Após conviver com um buraco no estômago, decidi não dormir mais na sua casa. Mesmo sentindo falta do seu colo e do cheiro da sua cozinha de manhã, estava aliviada por não ter que conviver com o barulho sombrio. Aos sábados, sempre aos sábados.

Até que um dia, tudo mudou. Minha mãe disse que eu teria que dormir lá porque ela precisava viajar, e eu não poderia ficar sozinha.

E lá fui eu.

De dia, minha avó recebeu um grupo de pessoas para dançar. Ela é professora de dança circular. Para o jantar, fez um macarrão alho e óleo, com muito manjericão e tomate-cereja por cima. Contou histórias da sua vida, histórias do seu presente. Disse que vai levar um grupo de pessoas para fazer dança circular em Alter do Chão, no Pará. Minha avó rodou o mundo todo e ainda tem pique para andar muito. A receita? Como ela diz, é comer comida de verdade, comer pouco, dormir e dançar muito.

Eu como muito, nem sempre como frutas e vegetais, minhas noites de sono são péssimas e acordo com qualquer barulho. Minha avó não perguntou por que deixei de dormir lá nos últimos tempos. Acho que ela não liga para o passado, vive o presente de cabeça erguida.

Coloquei o alarme do celular para 03h50 da manhã, deixei uma lanterna potente carregada. Estava pronta para desvendar aquele mistério que ficou comigo anos e anos.

Quando acordei com o alarme do celular às 03h50, bebi água, testei a lanterna. Estava pronta. Agachei na janela do quarto e, exatamente às 4 horas da manhã, o barulho começou. Me arrepiei.

Não precisei voltar no tempo para sentir medo. Naquele começo de dia, estava aterrorizada. Joguei luz pelo quintal. Somente árvores e restos de uma fogueira que fiz com minha avó na noite anterior. Ouvi o barulho misterioso.

O que é isso? O que pode ser isso? Eu já não era uma menina. Agora poderia enfrentar. Abri a porta da cozinha, que dava para a parte do quintal de onde vinha o barulho.

Iluminei. Nada de novo vi. Coloquei a lanterna em cima do telhado. Um jacu estava parado, me olhando com seu olho vermelho. Estava imóvel. O tumulto seguia por trás das árvores. Só mais alguns passos, e eu poderia desvendar. 

Um alvoroço atrás fez com que eu parasse de andar. Era um jacu, atrás de mim. Como não o ouvi? Jacus, quando voam, são barulhentos demais. O barulho estranho vinha de trás das árvores. A lanterna não poderia desvendar; tinha que atravessar e ver.

Outro som à direita. Era um jacu, também imóvel. Seria a mesma ave? Agora iluminei e encontrei dezenas de jacus, todos quase imóveis, me olhando. Seus pescoços acompanhavam meus passos. Era como se fossem guardiões do barulho assustador.

Resolvi voltar e acordar minha avó. Ela também vai querer saber a origem desse mistério.

Ao entrar no seu quarto, a cama estava vazia. Para onde ela foi?

Ao sair pela porta da cozinha, a legião de jacus estava no chão, parada, dividida ao meio, fazendo uma estrada para eu passar. Não me lembro de ter visto jacus no chão. Sempre ficam nas árvores ou no muro.

Suspirei.

Ao passar pelas árvores, vi uma mulher dançando sozinha, mexendo o corpo com intensidade, fazendo sons com a boca. Era a minha avó.

Senti mais medo ao descobrir que era ela quem fazia o barulho.

Na hora, pensei: como ela fazia esse barulho se, quando eu era criança, estava na cama? Será que minha avó é assombrada?

Quando ela parou de se mexer, com a respiração ofegante, sorriu para mim.

Perguntei como podia fazer o barulho e estar na cama ao mesmo tempo.

Ela me explicou que, quando eu era criança, seu namorado fazia essa dança para ela, todo sábado, às 4h da manhã.

Questionei por que ela nunca me disse nada quando eu ia à sua cama, com medo. Ela pediu desculpas. Disse que minha mãe e minhas tias não aprovavam o namorado, que era muito mais novo do que ela, por isso ela silenciou. 

Deixando as lágrimas soltas, contou que ele havia morrido meses antes. Desde então, em sua homenagem, ela passou a fazer essa dança.

Todo sábado, às 04h da manhã.

Poema “misturas”

Poema: Misturas
Autor: César Obeid
Proibida a reprodução, em qualquer meio, sem autorização do autor

 

As misturas fazem parte
De tudo o que conhecemos,
Das florestas às ciências,
Misturando nós vivemos. 

Um paõzinho com manteiga,
O arroz com o feijão, 
São misturas que guardamos
Bem dentro do coração.

Quando o sol está se pondo
E a lua é bem-vinda,
O crepúsculo aparece,
A mistura é muito linda. 

Claro que os animais
Vão entrar na brincadeira,
Vamos já mesclar os bichos,
Com as rimas verdadeiras. 

As misturas improváveis
Já entraram nesses versos,
Se encantem com as mesclas
Desses bichos mais diversos. 

O que pode acontecer
Com essa combinação,
Misturar um cavalinho,
Com um tal camaleão? 

O cavalo corre e trota, 
Porém nunca muda cor. 
E o camaleão parado
Muda a cor com tal primor.

E a pergunta que eu faço,
Me responda por favor:
Será que o cavaleão,
Corre muito e muda a cor?

O coelho ama o pulo,
Rei do rio é o jacaré
Misturando esses dois,
Já deu o coelharé! 

Ou então é o jacarelho,
Que é o fruto da mistura, 
Como será que esse bicho
Nada e pula nas alturas?

Que engraçado é misturar
Tartaruga com gatinho,
Vira uma gataruga
Ou então um tartatinho?

Seja um ou seja outro,
Eu não sei no que vai dar,
Não sei se é um bicho ligeiro
Ou se anda devagar?

Não sei se a gataruga
Ou então o tartatinho,
Terá um corpo muito fofo
Ou um casco bem durinho. 

Imagine uma formiga,
Misturada a um elefante,
Vai dar uma elefiga
Ou então um formifante?

Elefiga ou formifante,
Mas que nome pitoresco,
Será que será um bicho,
Pequenino ou gigantesco?

Se for grande ou bem pequeno,
Vai amar a união,
Formifante ou elefiga
Vai ter grande o coração. 

As misturas desses bichos,
Sejam do mar ou floresta,
Dão aos versos, alegrias
E as rimas fazem festa!

Já chegou a sua vez
De criar e misturar,
Crie bichos bem malucos,
Com a arte de rimar.